domingo, 22 de março de 2020

O vírus



E o tempo passando lento.
Lá fora sem movimento.
Aqui dentro só, com meu tormento.
Só me resta o isolamento.

A distância é o remédio,
Seu efeito colateral é o tédio.
A vida passa pela janela do prédio,
Entre janelas a arte por intermédio.

Luto contra algo que não vejo.
Sem conhecer meu inimigo, bravejo.
Para não errar em minhas decisões, corvejo.
Saúde e paz é só o que eu desejo.

De repente tudo mudou,
O barulho se silenciou,
A ganância se esganou
E a solidariedade aflorou.

Que aprendamos esta lição,
Não somos mais que imperfeição,
Construímos nossa destruição,
É chegada a hora de nossa remição.

Dy’ Paula

quarta-feira, 18 de março de 2020

Tristeza

Já fui insano por ti cortejar.
Cortejada, quantas vezes me ignoraste.
Mas de ti fui atrás cegamente.
Como um inseto que se atira ao fogo.

Abraçaste-me como se já não fosse possível soltar.
Como se agora foste parte de mim eternamente.

Cortejei-te, mas conheci teu gosto amargo.
Conheci teu peso por onde caminhei.
Tentaste assombrar meus sonhos e desejos.

Mas agora não a quero mais.
Não suporto teu gosto, fedor, peso e aperto no peito.
Tristeza, portanto chegaste a hora de partir, pois já não somos um. 

Tristeza, podes me deixar no porto e segues pelo oceano. 
Volte, mas brevemente, apenas para me lembrar de que tenho um coração e que ele sangra. 

Tristeza, podes me deixar que não a evocarei. Apenas nos momentos em que outro alguém me ferir pensarei em ti, mas brevemente, apenas para me lembrar de que tenho um coração e que ele chora.

Tristeza. Podes me deixar agora.

Manzi, J.G.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

A arte de sofrer


A dor é presente.
Mas sua presença é finita.
Sua finitude depende de quem a sente.
Sofrimento existe, mas não é eterno.

Há a imposição  da felicidade.
A felicidade se tornou uma tortura.
Há a obrigação de ser feliz.
Imposta nas fotos, nas fugas e nas aparências.

A que ponto chegou a ditadura da felicidade?
Ao ponto de ser proibido sentir dor ou sofrimento?
Porém ambos existem, querendo ou não.
Mas se tornou regra sua ocultação.

A felicidade farsante é a nova imposição.
Assim como a negligência ao sofrimento e a dor.
Nascendo o obstáculo de curar as feridas.
É mais justo ter suas feridas abertas?

A dor e o sofrimento existem.
Em tempos de fotos e registros onde todos são felizes.
Sofrer se tornou a maior das fraquezas.
Não seria mais justo o tornar cicatrizes?

A dor e o sofrimento são finitos,
Mas encobri-los em prazeres momentâneos,
Levarão a finitude de sua vida.
A dor o consumirá até seus últimos caminhos.

Julgar e punir quem sofre se tornou regra.
Uma imbecilidade disfarçada de hipocrisia e ignorância.
Pois se é humano, então sofrerá, algum dia sofrerá.
O grande dilema é o que fazer com a dor.

Esconde-la em vicios, prazeres e hipocrisia.
Tornaram-se o caminho comum.
Assim a finitude da dor e sofrimento se esvai.
Dando lugar a uma eterna ferida.

Vergonha não é sofrer ou sentir dor.
Mas sim deixar que suas feridas não se curem.
Não deixar com que elas se tornem cicatrizes
Vergonha é optar pela felicidade farsante.

Manzi, J.G.

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